Desafios para uma formação de qualidade

por | maio 28, 2018

Muito se tem falado sobre a qualidade do corpo discente nas universidades. Professores alegam que os alunos “tem pouca base intelectual”, enquanto os alunos alegam que os professores “não sabem dar aula”. A verdade é que a distância entre as gerações aumentou significativamente em pouco tempo e o ambiente acadêmico não está sabendo exatamente como lidar bem com isso.

Não surpreendentemente, essa distância cria um conflito: de um lado, professores formados há 10-30 anos e com um mindset de uma geração mais antiga, enquanto do outro lado, alunos jovens, cheios de informações e desejando instrução. Como criar um diálogo construtivo entre gerações tão distantes?

Antes de mais nada, é preciso reconhecer os pontos positivos que cada uma delas traz consigo:

Experiência: não há discussão de que a geração mais antiga é mais experiente. Professores lidam com uma enorme quantidade de responsabilidades e burocracias no Brasil e isso constrói uma visão impar sobre Ciência e os sistemas universitários. É importante frisar, no entanto, que ter experiência é uma mera questão temporal: os jovens alunos se tornarão experientes à medida que vivenciarem novas realidades e experiências.

Informação: é necessário dizer que os alunos mais jovens têm mais acesso à informação de forma natural. Redes sociais, navegação pela internet e uso de computadores em geral ainda conseguem ser um mistério entre uma parte do professorado. Professores Doutores possuem um cabedal de informação técnica muitíssimo relevante para a sociedade como um todo e isso deve ser valorizado. Contudo, as “novidades” parecem circular com maior rapidez entre aqueles que estão conectados com maior frequência.

Dinamismo: nesse ponto, não há discussão: os alunos são mais dinâmicos em suas comunicações, formas de pensar e acesso a informações. O fluxo de informação é muito mais rápido, o que gera uma renovação e evolução acelerada de seu conhecimento. Mas vale relembrar: nem toda informação é relevante (e num mundo de fake news, nem toda informação é verdadeira!). Os professores, em geral, devem compreender que a forma do aprendizado evoluiu muito nos últimos 5-10 anos e métodos pedagógicos comuns há algum tempo já não são eficientes.

Conhecimento técnico: obviamente, os professores possuem mais conhecimento técnico (e por isso estão nessa posição). Contudo, o formato da aula ou sua qualidade podem (e devem) ser motivo de debates constantes, com objetivo de melhora. Impasses podem ser levados a coordenação do curso ou entidades capazes de solucionar a questão (pró-reitorias e afins), mas diálogos maduros e abertos geralmente resolvem a questão. Outro ponto comum é o aluno dar muito peso ao fato do professor “ser legal ou não”, ao invés de questionar a qualidade da aula. Estudante é uma profissão, então devemos agir com profissionalismo e separar o pessoal do profissional.

Mas ainda que impasses ocorram, cada uma das partes deve reconhecer onde falha. No entanto, os estudantes também podem reavaliar pontos que os ajudarão profundamente em suas carreiras:

Engajamento: somos uma geração muito pouco engajada. Talvez seja efeito das redes sociais, mas existe uma imensa dificuldade em convergir em um mínimo comum e lutar por ele. Isso impacta fortemente nas aquisições de novas experiências. Consequentemente, nossas vozes não terão o peso necessário quando precisarem ser ouvidas, simplesmente porque soarão ingênuas por não conhecer além do mundo estudantil.

Resiliência: gerações anteriores à nossa entraram na faculdade, passaram por várias disciplinas (as vezes mais) difíceis do que estamos cursando, se formaram, conseguiram emprego ou entraram na pós-graduação e continuam batalhando por suas conquistas pessoais. Nós estamos tendo dificuldades em realizar as mesmas tarefas. Nessa equação, a constante são as tarefas e a geração é a variável. É preciso conhecer nosso próprio ritmo, mas sem deixar de desenvolver essa musculatura emocional.

Habilidades pessoais: se a geração anterior deu muito valor às habilidades técnicas, os RH’s do mercado de trabalho atual são unânimes: é preciso desenvolver melhor as habilidades humanísticas entre os alunos da geração atual. Isso é: 1- boa comunicação (escrita e falada); 2 - capacidade de trabalhar em grupo; 3 – proatividade; 4- liderança e outros. O número de vagas para bioquímicos no mercado de trabalho tem crescido rápido nos últimos anos e o gargalo agora é a qualidade da mão de obra que tem feito os processos seletivos. Não adianta reclamar de emprego se não fizermos esforços de nos qualificar.

Brio: tá faltando. Tem faltado reconhecer que estamos falhando em lutar pelos nossos sonhos e pelo nosso futuro. Entrar no ensino superior significa se dispor a se qualificar e se elevar como recurso humano, como mão-de-obra. Pra onde foi a força de vontade?

Outros pontos poderiam ser tratados aqui, mas o crucial é reconhecer os pontos positivos e dificuldades de cada personagem (alunos e professores) nessa história. Até mesmo porque não existem diferentes lados lutando entre si, mas sim uma união de forças acadêmicas que só tem um objetivo: a construção de uma geração mais capacitada intelectualmente. Onde você pode melhorar?

Marcelo Depólo Polêto
Bioquímico pela UFV, Doutorando em Biologia Celular e Molecular
marcelodepolo@gmail.com

 

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O movimento Bioquímica Brasil foi fundado em 2014 por egressos e estudantes dos cursos de Bioquímica.

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