Coronavírus (SARS-CoV-2): Prospecção científica e tecnológica para a imunização contra a Covid-19.

por | jun 23, 2020

O surgimento da doença provocada por uma variação da família do Coronavírus causou um surto global e confere, hoje, como um grande problema de saúde Pública. Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou que o cenário pandêmico provocado pela Covid-19 constituiu uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional.

Diante deste cenário, várias pesquisas entraram em vigor no intuito de identificar potenciais tratamentos e encontrar a vacina para a enfermidade. Enquanto alguns grupos rapidamente se organizam para monitorar casos em tempo real, outros se empenham nos estudos e avanços tecnológicos e investem na aplicação de modelos matemáticos e estatísticos para monitorar o novo coronavírus e definir estratégias de ação para a criação da vacina contra o SARS-CoV-2.

O termo coronavírus refere-se à aparência dos vírions de CoV, que possuem formato de coroa. Eles são vírus envelopados, com genoma de RNA “positivo” de fita simples e com tamanho aproximado de 26 a 32 Kb, tendo o maior genoma conhecido para um vírus de RNA. Os CoVs podem exibir uma sazonalidade bienal típica diferente da que ocorre com outros vírus respiratórios, assim, causam patologias respiratórias e entéricas em vários hospedeiros, incluindo aves, porcos e humanos.

O HCoV foi o primeiro coronavírus humano e a partir dele existem sete variações, as quais as mais conhecidas são o SARS-CoV (que causa SARS), o MERS-CoV (que provoca MERS) e o SARS-CoV-2 (vírus responsável pela COVID-19.

No que se refere ao vírus da COVID-19, uma característica marcante nos estudos que envolvem o desenvolvimento da vacina é que não é seguro utilizar o método tradicional, baseado em vírus atenuados ou inativos. Pois os antígenos inseridos levam o corpo a produzir anticorpos para enfrentar esses invasores específicos e, quando a pessoa imunizada realmente for infectada, dificilmente terá a doença ou irá desenvolvê-la de uma forma mais branda. Sendo assim, o conhecimento das características do vírus serve como parâmetro para desenvolver vacinas eficientes.

Contudo, no que diz respeito ao SARS-CoV-2, estamos lidando com um patógeno pouco conhecido, em que devemos priorizar, além da eficiência, a segurança, evitando a inserção de um material genético do vírus no corpo humano.

Estudos recentes sobre a investigação de possíveis candidatas a vacina contra a COVID-19 priorizam conhecimento quanto a organização Genômica e Replicação do SARS-CoV-2 e o entendimento quanto à patogênese do mesmo.

O genoma do SARS-CoV-2 é acondicionado dentro de um capsídeo helicoidal formado pela proteína nucleocapsídeo e envolto por um envelope. Estudos recentes afirmam que por ser um vírus de RNA, o SARS-CoV-2 possui variabilidade genética intrínseca, adjunto a isso as características da sua estrutura possibilitam que ele sofra ainda mais mutações para melhorar sua ligação aos receptores humanos. O que confirma que a adoção do método tradicional de vacinas não seria eficaz.

Aliado a isso, um dos temores em relação ao desenvolvimento de uma vacina para esta enfermidade está na possibilidade de ocorrer um fenômeno conhecido como “reforço da doença por anticorpos”. Ele acontece quando um indivíduo contrai diferentes tipos do mesmo vírus ao longo da vida. Em uma situação hipotética, se ao ser imunizado pela vacina e contaminado pelo tipo 1, pela primeira vez, o indivíduo desenvolve anticorpos contra esse sorotipo do vírus e fica curado. Mas, na segunda vez, ao pegar qualquer outro dos tipos existentes, os anticorpos desenvolvidos contra o tipo 1 reconhecem o vírus de qualquer outros tipos, se ligam a ele, mas não são eficazes em neutralizá-lo e seu poder de infecção acaba aumentando.
Tendo em vista toda essa problemática no que tange à descoberta de uma candidata a vacina contra a COVID-19, a aposta dos pesquisadores para contornar os impasses está na adoção de outros tipos de tecnologia que estão sendo avaliados, incluindo ácidos nucléicos (DNA e RNA), partículas semelhantes a vírus, peptídeo, vetor viral (replicante e não replicante) e proteínas recombinantes.
Há um protótipo em desenvolvimento que usa RNA mensageiro (mRNA), responsável por orientar a síntese de proteínas no interior das células, para produzir proteínas as quais o corpo conseguirá criar uma resposta imune. Já no protótipo da CanSinoBIO o estudo é baseado na adoção de uma outra plataforma, no adenovírus humano tipo 5, causador principalmente de infecções respiratórias e pneumonia, que é utilizado para criar uma resposta imunológica contra a COVID-19.

Em declarações recentes, A universidade Federal de Viçosa diz que irá atuar no desenvolvimento de vacinas para a COVID-19. O projeto nomeado “Produção de quimeras vacinais contra o vírus SARS-CoV-2” contará com três vacinas propostas, sendo uma delas a utilização de uma subunidade proteica do SARS-CoV-2 para a indução de anticorpos, técnica explicada acima.

O esforço global para a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas em resposta à pandemia da COVID-19 é evidente. Houve rápidos avanços no que sabemos sobre o patógeno, mas estudos adicionais são necessários para fornecer um entendimento profundo da replicação, patogênese e conhecimento, além da aplicabilidade, de tecnologias vacinais mais adequadas para a mesma.

O desenvolvimento de novas vacinas constitui um investimento elevado, tempo prolongado e exige a participação de equipes multidisciplinares. Todavia, com base na urgência do cenário atual, se faz necessário a aceleração, de forma segura, deste processo.

A descoberta de uma vacina contra o SARS-CoV-2 pode ser a chance das novas plataformas e tecnologias de desenvolvimento desses antídotos mostrarem sua eficiência. Caso comprovada sua capacidade poderá servir como uma solução para futuras doenças emergentes e outras epidemias futuras.

Atualmente, enquanto não temos a vacina definida e criada, a intervenção eficaz nas medidas de controle da infecção é a melhor maneira de impedir a disseminação do SARS-CoV-2.

REFERÊNCIAS:

MODERNA. What does mRNA do? mRNA produces instructions to make proteins that may treat or prevent disease: the science and fundamentals of mrna technology. The Science and Fundamentals of mRNA Technology. 2020. Disponível em: https://www.modernatx.com/mrna-technology/science-and-fundamentals-mrnatechnology. Acesso em: 22 jun. 2020.

SCHATZMAYR, Hermann G.. Novas perspectivas em vacinas virais. História, Ciências, Saúde-manguinhos, [s.l.], v. 10, n. 2, p. 655-669, 2003. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702003000500010. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010459702003000500010&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em: 22 jun. 2020.

Zhai, Pan, et al. “The Epidemiology, Diagnosis and Treatment of COVID-19”. International Journal of Antimicrobial Agents, vol. 55, no 5, maio de 2020, p. 105955. DOI.org (Crossref), doi:10.1016/j.ijantimicag.2020.105955.

Ahmed, Syed Faraz, et al. “Preliminary Identification of Potential Vaccine Targets for the COVID-19 Coronavirus (SARS-CoV-2) Based on SARS-CoV Immunological Studies”. Viruses, vol. 12, no 3, fevereiro de 2020, p. 254. DOI.org (Crossref),doi:10.3390/v12030254.

Yang, Limin, et al. “[Strategies for vaccine development of COVID-19]”. Sheng Wu GongCheng Xue Bao = Chinese Journal of Biotechnology, vol. 36, no 4, abril de 2020, p. 593–604. PubMed, doi:10.13345/j.cjb.200094.

https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2020/06/16/ufv-vai-atuar-no-desenvolvimento-de-vacinas-para-a-covid-19.ghtml

 

Autor: Fernanda Reis Martins, membro do Centro Acadêmico da Universidade Federal de Viçosa e da Polimerize – Empresa Júnior de Bioquímica da Universidade Federal de Viçosa.

E-mail: Fernanda.r.martins@ufv.br

Compartilhe este artigo:

Bioquímica Brasil

O movimento Bioquímica Brasil foi fundado em 2014 por egressos e estudantes dos cursos de Bioquímica.

bioquimicabr@gmail.com

Bioquímica Brasil

O movimento Bioquímica Brasil foi fundado em 2014 por egressos e estudantes dos cursos de Bioquímica.

bioquimicabr@gmail.com

0 comentários

Enviar um comentário

Bioquímica Brasil ©. Divulgando Bioquímica desde 2014!