Produção e Processos Bioindustriais: Biofármacos Veterinários na Vallée

por | nov 3, 2014

A Joana Gasperazzo é bioquímica pela UFV, (2001-2005), com mestrado em Bioquímica agrícola na UFV e doutorado em Ciências Biológicas-Biologia Molecular pela Unifesp. Atualmente é pesquisadora-bolsista RHAE-nível doutorado na Vallée, em Montes Claros-MG.
- (Bioquímica Brasil) Joana, você poderia nos contar um pouco de sua trajetória?
(Joana) Eu formei como bacharel em Bioquímica na UFV em janeiro de 2005 (fui da primeira turma de BQI), em seguida fiz o mestrado também na UFV no programa de pós-graduação em Bioquímica Agrícola, e em 2007 iniciei o doutorado em Ciências na UNIFESP. Atuei como professor substituto no Depto de Bioquímica e Biologia Molecular da UFV por 2 anos (2011 – 2013) e fui bolsista de pós-doutorado por 10 meses no Depto de Biologia Geral da UFV. Desde Julho de 2014 sou pesquisadora na empresa Vallée, que atua no ramo de fármacos veterinários, como bolsista CNPq/RHAE nível doutorado.
- Você é bolsista RHAE em uma indústria veterinária. O programa RHAE, atualmente, visa fixar mestres e doutores em empresas e indústrias, oferecendo uma bolsa federal como remuneração. Portanto, o pesquisador não é ainda funcionário da indústria, mas sim bolsista do governo federal. Como você soube deste programa?
Por incrível que pareça, até maio deste ano eu desconhecia este programa, pois não é muito divulgado nas Universidades, pelo menos no que tange a UFV. Recebi um e-mail encaminhado pelo secretário da Pós-graduação em Bioquímica Agrícola da UFV, para os ex-alunos de pós, notificando a vaga. Como a descrição da vaga era para atuar com pesquisa em purificação de proteínas, e como durante toda minha pós-graduação venho trabalhando com o assunto, resolvi cadastrar meu currículo. Inicialmente fui selecionada para realizar uma entrevista on line com o setor de RH, e posteriormente uma entrevista pessoal com o gerente do Laboratório. Finalmente, fui convidada para conhecer a empresa e a cidade de Montes Claros e assim selecionada para a vaga. Como bolsista RHAE o pesquisador não possui vínculo empregatício com a empresa, não recebendo os benefícios que um empregado com carteira assinada tem direto.
- Como funciona o programa na prática? Você interage 100% do tempo com a indústria, trabalhando nela e tendo como colegas de trabalho funcionários da empresa ou você trabalha dentro da universidade, com pouca interação direta com a indústria?
No programa, o pesquisador deve estar atuando dentro da indústria. Sigo a mesma rotina que os outros empregados da empresa, somente não necessito bater o ponto, pois não possuo vínculo empregatício, mas tenho que seguir o horário de entrada (7h), horário de almoço e de saída (17:40h). Interajo com todos os funcionários, tanto do meu setor, quanto de outros setores da empresa. Já tive a oportunidade de conhecer os diretores da empresa e tenho acesso direto ao gerente do meu setor. O programa RHAE é um dos programas mais interessantes do governo federal, pois há muitos doutores formados no país, entretanto não há vagas no mercado acadêmico para absorver todos estes profissionais. Eu mesma possuo 3 aprovações em concursos públicos federais para professor adjunto, sendo 2 deles ainda na validade, mas sem nenhuma perspectiva de nomeação. Quando fiquei sabendo desta oportunidade não pensei duas vezes, pois era a minha chance de entrar na indústria somente com a experiência acadêmica.
 - Quais as diferenças que você percebe entre os objetivos e ambiente de trabalho na indústria em relação aos da universidade?
Os objetivos são muito diferentes. Na universidade você trabalha para você e seu supervisor, o objetivo é o maior número de publicações de artigos científicos em revistas indexadas de impacto relevante que você conseguir, mediante dezenas de colaborações estabelecidas com diferentes departamentos da mesma instituição ou de outras Universidades. É a corrida pelo aumento do número de artigos publicados, pois todos os concursos acadêmicos valorizam muito o número e a qualidade das publicações. Na Indústria, o principal objetivo é o produto final, com o menor custo e a simplicidade no processo. Mas na empresa também temos que escrever relatórios, patentes, protocolos, etc... A grande diferença que observei entre a Indústria e a Universidade é a organização do projeto de trabalho.
- De acordo com sua trajetória e com sua experiência em indústria, você consegue ver o bioquímico atuando fora de um P&D, por exemplo, controle de qualidade?
Eu atuo com Pesquisa, e acho que este setor cai como uma luva para os bioquímicos. É um setor que exige conhecimentos muito específicos, criatividade, raciocínio lógico e muita leitura científica (artigos, patentes, livros, etc..), características que os bioquímicos possuem. Entendemos muito mais de bioquímica do que qualquer profissional formado em outras áreas. O setor de controle de qualidade é mais engessado, você basicamente segue protocolos, os bioquímicos podem atuar, pois possuem o conhecimento básico exigido, mas as indústrias preferencialmente contratam químicos. Não acho que seja o melhor setor para um bioquímico, podemos desenvolver novos produtos em qualquer segmento industrial, pois fomos condicionados à pesquisa durante toda nossa graduação. Não podemos desperdiçar isso, este é o nosso diferencial, devemos aproveitar esta característica singular.
- Quais habilidades você acha que o bioquímico deve desenvolver para trabalhar no P&D industrial?
Na indústria você aprende a ser mais organizado, por exemplo, para cada solução que preparo ou cada protocolo que desenvolvo, tenho que fazer um documento a respeito. Na Universidade somos mais livres, não há tanto rigor. Trabalhar em equipe e ter em mente que você não foi contratado para desenvolver apenas uma atividade, que você será envolvido em diversos projetos e terá que interagir com todos os coordenadores, isso requer muito estudo e comunicação. No meu caso, os anos do doutorado me ajudaram a desenvolver essas características.
- Você acha que seja necessário alguma alteração na grade de disciplinas para a atuação na área industrial?
Sim acho. Como fui da primeira turma, não tive a disciplina de gestão de projetos, e esse conhecimento é imprescindível para quem trabalha em uma empresa, terei que fazer uma pós-graduação lato senso para suprir essa deficiência. As disciplinas específicas de bioquímica atendem perfeitamente. Mas é importante que o profissional esteja sempre se atualizando, uma pós-graduação é sempre bem-vinda e é o diferencial que te leva a cargos de maior remuneração. Aos poucos o mercado brasileiro vem perdendo a antiga visão de que Doutor tem que ficar na Universidade e a Indústria não tem que fazer pesquisa.

 

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O movimento Bioquímica Brasil foi fundado em 2014 por egressos e estudantes dos cursos de Bioquímica.

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