O uso dos peixes como modelos de organismos utilizados para compreender a correlação entre o ambiente e o comportamento humano

por | mar 15, 2020

Interpretar a sociedade atualmente é procurar nos comportamentos que ela possui, interações entre o ambiente, o social e o psicológico. A bioquímica, por estudar piedosamente não só a vida humana, como de todos os organismos, faz parte da história de buscar dentro das reações químicas possíveis explicações, análises e soluções de problemas presentes dentro da humanidade em que vivemos. Desse modo, é possível dizer que a bioquímica, uma área da saúde e da biologia, está fortemente ligada com áreas da sociologia e história.
Figura 1.

Fonte: Retirada de Modelos de peixe-zebra em toxicologia neural e comportamental em todas as fases da vida. (adaptada de Zebrafish Models in Neural and Behavioral Toxicology across the Life Stages ) [1] Disponível em: < https://www.mdpi.com/2410-3888/5/3/23 > Acesso em 04/12/2020

Dentro da sociedade indivíduos da mesma espécie se diferem de muitas maneiras. (Fereira, 2020), sendo estabelecido que uma mesma população se difere geneticamente, fisiologicamente e claro, comportalmentamente. Um dia dentro de uma pequena comunidade é possível observar individualidades em gostos, diferentes maneiras de realizações de tarefas e como diferentes indivíduos se comportam em situações iguais, ou seja, qual a base que cada um utiliza para enfrentar alguma dificuldade, mesmo tais indivíduos possuindo grande similaridade genética.
Em um estudo sobre o comportamento animal, é sempre importante lembrar que todas as ações individuais sempre interagem com a sociedade e com o ambiente de alguma forma, e vice-versa (figura 1). Ao ser exposto à um ambiente tóxico, por exemplo, o indivíduo pode vir a ter uma resposta individual que não afete só a si mesmo, mas que por ventura, desequilibre a população, a comunidade, o ecossistema, e assim por diante.
Organismos modelos são muito utilizados para pesquisas que tem o objetivo de compreender o comportamento humano quando a experimentação humana é inviável ou antiética. Essa estratégia é possível pela conservação de várias vias metabólicas ao longo da evolução dos animais. Um organismo modelo nada mais é que uma espécie não humana estudada para compreender fenômenos biológicos específicos com a expectativa de que as descobertas feitas nessa pesquisa, fornecerão uma visão sobre o funcionamento de outros organismos, nesse caso, os humanos.
Os peixe-zebras (figura 2) são ótimos candidatos para organismos modelos, pois além da homologia genética com os mamíferos, eles possuem um rápido desenvolvimento, transparência de embriões e larvas, e seu custo não é alto, bem como o espaço de trabalho não requer alta sofisticação. Peixe-zebras, geralmente são utilizados em pesquisas neurotoxicológicas por apresentarem variações mensuráveis de comportamento como a sociabilidade, ansiedade, agressão e o medo. Um exemplo de impacto pode ser quando contaminantes neurotóxicos mudam os níveis de alarme e fuga de predadores desses organismos, que diminuem sua capacidade de escapar ou evitar ameaças reais ou potenciais, trazendo consequências ambientais graves. Interessante destacar que em laboratório esta situação problema pode ser testada e comprovada. Constatou-se (Peterson, et al., 2017) que esses tóxicos podem produzir efeitos nas respostas de nível individual que consequentemente irão impactar nas respostas desses indivíduos em sua população, espécie, comunidade, ecossistema e níveis evolutivos.
Figura 2.

Fonte: Retirada de Efeitos neurocomportamentais da Cafeína em duas populações de
peixe-zebra [4]
Disponível em: < https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/17940/DIS_PPGCBBT_2017_ROSA_LUIZ.pd f?sequence=1&isAllowed=y > Acesso em 15/12/2020

Alguns dos meios de avaliação do comportamento semelhante à ansiedade em peixeszebra são os testes de preferências claro/escuro e o “novo tanque”, que envolvem medidas de distribuição espaço-temporal e etograma (análise de congelamento, natação irregular), os quais são testes sensíveis a tratamentos ansiolíticos ou ansiogênicos. Foi analisado, que o estudo no claro/escuro é mais sensível que os tratamentos em geral e que ambos os testes provocam uma resposta significativa de cortisol igualmente. (Dutra Costra, Aquino Moura, Gomes Pinto, Lima Maximino, & Maximino, 2020). Um estudo a respeito de como a cafeína causa efeitos neurocomportamentais em peixe-zebras foi desenvolvido, primeiramente deixando-os em contato com a cafeína e em seguida alojando-os em um novo tanque, para que posteriormente a análise do comportamento pudesse ser concluída. Apurou-se comportamentos similares à ansiedade nos dois fenótipos de peixe-zebras, selvagem e leopardo. [3]
O comportamento é um indicador de vários níveis de resultados biológicos ((Little 1990; Weis et al. 2001; Scott and Sloman 2004; Kane et al. 2005; Weis 2013), além de ser uma ferramenta de atenção em testes experimentais. Isso porquê o comportamento é uma característica muito flexível e vive mudando constantemente, e os toxicologistas antes mesmo de perceber respostas no genoma, conseguem analisar primeiro no comportamento quais as mudanças causadas por determinado tóxico, como por exemplo a cafeína citada acima, que é de grande consumo humano.
Experimentações como essas possuem grande compromisso com a sociedade em que vivemos, em razão dos diversos conflitos que atualmente sofremos. Entender a mente humana e suas fraquezas é uma tarefa difícil, mas graças à aproximação de ciências tão significativas como humanas e biológicas, estudos sobre análise comportamental tornamse cada vez mais perto de mudar essa perspectiva.

REFERÊNCIAS:
[1] DUTRA COSTA, Bruna Patricia; AQUINO MOURA, Layana; GOMES PINTO , Sabrina Alana; LIMA MAXIMINO, Monica Gomes; MAXIMINO, Caio. Zebrafish Models in Neural and Behavioral Toxicology across the Life Stages. MDPI, [S. l.], p. 1-24, 10 jun. 2020. DOI https://doi.org/10.3390/fishes5030023. Disponível em: https://www.mdpi.com/2410- 3888/5/3/23. Acesso em: 4 dez. 2020
[2] LEITE FERREIRA, Maria Eisa. Diferenças comportamentais na resposta ao álcool em peixes juvenis de zebrafish (Danio rerio). Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia, [S. l.], p. 1-53, 11 fev. 2020. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/29197/1/Diferencascomportame ntaisresposta_Ferreira_2020.pdf. Acesso em: 12 jan. 2021.
[3] Peterson, E.K.; Buchwalter, D.B.; Kerby, J.L.; LeFauve, M.K.; Varian-Ramos, C.W.; Swaddle, J.P. Integrative behavioral ecotoxicology: bringing together fields to establish new insight to behavioral ecology, toxicology, and conservation. Curr. Zool. 2017, 63, 185– 194, doi:10.1093/cz/zox010.
4] COSTA DA ROSA, Luíz Vinicius. Efeitos neurocomportamentais da Cafeína em duas populações de peixe-zebra. Mestrado em Bioquímica Toxicológica , [S. l.], p. 1-56, 19 set. 2017. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/17940/DIS_PPGCBBT_2017_ROSA_LUIZ. pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 15 dez. 2020.

Autor: Letícia Pavan dos Anjos, graduanda de Bioquímica da Universidade Federal de São João Del Rey
E-mail: leticiapavan.anjos@hotmail.com

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