A reforma do sistema científico-tecnológico do país

por | set 9, 2018

 

SLXLM

 

Em tempos de grave crise do sistema científico-tecnológico do país e eleições, como reinventar, reformar este sistema? Não é apenas a Previdência que precisa de uma reforma. É necessário urgentemente a reforma do sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do país. O modelo pré-crise, calcado em ciência básica, financiamento predominantemente público, bolsas, afastamento da sociedade para preservar a ''pureza'' já não satisfaz mais uma sociedade que cada vez mais questiona suas prioridades e a eficiência de suas ações. Com base nisso, acreditamos que seja necessário:

1-  Reforma do sistema público de Ciência, Tecnologia e Inovação

É preciso compreender que estamos diante de uma grande oportunidade de reorganizar o sistema público de Ciência, Tecnologia e Inovação no país. É possível que a universidade pública e órgãos de pesquisa públicos recuperem sua importância social ao investir em um papel de indutor de inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia, ao invés de apenas meramente um papel de produção de conhecimento científico em papers e recursos humanos. Para isso, será necessário visão, planejamento estratégico e abandono da postura de isolamento frente as reais questões da sociedade.

• Parcerias público-privadas: Parte dos laboratórios das universidades públicas e institutos públicos deverá aceitar parcerias com empresas e industrias, nacionais e multinacionais se quiserem de fato entrar no jogo da inovação.. Entretanto, os pesquisadores nacionais deverão ter também uma mentalidade mais empresarial e empreendedora, colocando em seus contratos de parcerias público-privadas questões de propriedade intelectual, custos exatos de compras, usos de equipamentos e reagentes e um dado percentual de ‘’lucro’’ a ser revertido para o financiamento de suas pesquisas em ciência básica. Isso requer qualificação dos docentes e modernização da burocracia das universidades.

• Novo Olhar social para empresas e indústrias: A universidade pública não apenas deverá deixar de ser uma torre de marfim isolada dentro de si mesma, mas também deverá aceitar que problemas de empresas e indústrias também são problemas sociais! Fomentar a inovação, transferência de tecnologia, empreendedorismo e competitividade industrial será tão ou mais importante socialmente do que meramente a produção acadêmica de papers. De uma forma direta ou indireta, a universidade pública estará ajudando a gerar empregos e movimentar a roda da economia, que através de suas engrenagens e impostos gerados, irá também ajudar a melhorar a saúde, a soberania nacional, educação básica, saneamento etc. De tabela, gerando maior impacto, o investimento é atraído.

• Salário e não bolsa. Pesquisador e não estudante! Parte significativa de olhar para fora da universidade é também reformular a remuneração e o status precarizado de quem de fato realiza as pesquisas científicas no país. Muito se falou na reforma trabalhista sobre precarização do trabalho, mas já pararam para pensar o quão precário é o trabalho de mestres, doutores e pós-doutores em termos de direitos e status? Sem férias, décimo terceiro, FGTS e com parte da comunidade científica achando normal esse sistema feudal? Outros países mais competitivos em ciência, tecnologia e inovação fazem exatamente o contrário, buscando cobrir quem realiza a pesquisa científica com o máximo possível de direitos trabalhistas. E que tal se houvesse cargos de pesquisador associado ou pesquisador assistente, desvinculado de programas de mestrados e doutorados? Não iríamos ganhar pessoas 100% dedicadas a ciência, tecnologia e inovação, elevando o status da pesquisa nacional? Nenhum país desenvolvedor de novas tecnologias ou ciências chegou à esse status sem investir e valorizar a mão-de-obra basal.

• Novo Fomento Público: Instrumentos recentes de fomento a pesquisa, como Endowment e fundos de doaçao,  Embrapii, BNDES e FINEP deverão ser estimulados a terem tantos recursos quanto Capes/CNPQ , ajudando a fomentar esse papel indutor comentado acima. Esse é um campo mais complexo, que exige uma contrapartida privada e, com isso, um complexo industrial mais maduro. Isso só será realizado com planejamento estratégico de planos de governo que invistam na autonomia brasileira em Ciência e Tecnologia.

 

• Revisão do que é “Impacto Científico”: as métricas para avaliar a relevância ou divulgação de um paper têm sido questionadas no mundo todo após subsequentes escândalos de fraudes de citações. Com o advento das redes sociais ou iniciativas como ResearchGate, a forma como um artigo impacta a comunidade também se modernizou. Por exemplo: a PLOS tem contabilizado compartilhamentos de um artigo no Twitter ou Facebook, o que é computado em suas métricas. Dito isso, o sistema brasileiro precisará modernizar sua “régua” se quiser se manter atualizado com as tendências mundiais.

 

• Revisão do que é “Impacto Científico” (2): diversas universidades particulares e alguns setores das universidades públicas estão focadas em gerar transferências de tecnologias ou processos ao invés de produzirem artigos, teses, doutores e mestres. A métrica atual do MEC tem dificuldade de valorizar diferentes tipos de expertise, o que acaba prejudicando instituições que possuem um foco único mas de extremo sucesso. A obrigação da tríade Ensino-Pesquisa-Extensão deverá ser revisto e flexibilizado se quisermos cobrar excelência em apenas um pé do tripé.

2- Um sistema privado de ciência, tecnologia e inovação.

Se nós temos um sistema privado de ensino e um sistema privado de saúde, atrelados pela constituiçao de 88 aos interesses públicos,por que não termos um sistema privado de ciência, tecnologia e inovação? A exemplo do que ocorre em outros países, em especial nos EUA, chegou a hora da iniciativa privada, a seu modo, investir em inovação, tecnologia e ciência. É importante frisar, entretanto, que a régua precisa ser diferente daquela utilizada pela iniciativa pública e que deve ser complementar e não substituir o sistema estatal!

• Financiamento privado baseado no sistema financeiro: Diversos setores da economia nacional se movimentam com base na captação de dinheiro de bancos privados, fundos de investimento e bolsas de valores. A exemplo do que ocorre nos EUA com a bolsa de valores NASDAQ, não seria a hora de existir uma bolsa de valores para tecnologia e inovação do hemisfério sul? E se temos fundos de investimento imobiliários, por que não fundos de investimento específicos para start ups? É sempre bom lembrar que existem no país investidores-anjo, empresas de venture capital e private equity.

• Consolidação de Centros e Universidades privadas de pesquisa: Sim, existem universidades particulares que investem em pesquisa científica, tecnológica e de inovação e algumas delas não são PUCs! Consolidar e expandir esse sistema se torna primordial para o país, sendo portanto a nova fronteira da ciência e tecnologia nacionais, sem contudo perder o controle rígido sobre a qualidade do ensino, pequisa e extensão. Um exemplo recente é o BiotechTown de Belo Horizonte.

• Financiamento privado baseado em capital industrial: Indústrias e empresas fomentando iniciativas de inovação, ciência e tecnologia internamente em centros de inovação próprios e em parceria público-privadas com universidades públicas ou através de estímulos ao ambiente de start ups.

• Fomento privado a ciência básica: Iniciativas similares ao Instituto Serrapilheira, que mimetizam os valores, comportamentos e métricas do sistema acadêmico atual, mantendo o status quo atual, acrescentam pouco na quebra de paradigmas no sistema de ciência, tecnologia e inovação do país, porém, este tipo de iniciativa ajuda a apontar para a criação de um sistema privado de ciência, tecnologia e inovação mais robusto.

 

Conclusão:

Estamos diante de um momento ímpar na história da ciência, tecnologia e inovação do país, onde o modelo anterior, baseado exclusivamente na iniciativa estatal, bolsas e produção de conhecimento em papers começa a ser questionado. Neste cenário, a diversificação de métricas, propósitos e maior incentivo privado parece indicar para um aumento da complexidade do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação, a exemplo do que ocorreu nos países em desenvolvimento. Portanto, novos olhares e quebra de paradigmas devem ocorrer e serem perseguidos, mas não ás custas da quebra total do modelo anterior, de tanto sucesso no caso brasileiro.

 

Fontes utilizadas:

http://portal.andes.org.br/andes/print-ultimas-noticias.andes?id=9298

http://cartacampinas.com.br/2018/01/xrelatorio-internacional-mostra-que-universidade-particular-no-brasil-não-produzem-conhecimento/

https://revistas.ufpr.br/rinc/article/view/50289/31682

https://www.the-scientist.com/careers/philanthropic-funding-makes-waves-in-basic-science-30184

https://undsci.berkeley.edu/article/who_pays

http://embrapii.org.br/categoria/institucional/quem-somos/

http://www.finep.gov.br/

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