Transição academia-indústria, um bate-papo com Georgia Porto

por | nov 19, 2017

Marcelo: Hoje, estamos com uma entrevistada muito especial, a Georgia Porto, bióloga com vasta experiência em divulgação científica em mídias sociais e transições academia-empresa, academia-mercado, que é uma coisa bem legal. Georgia, obrigado por ter aceitado nosso convite!

Georgia: Eu que agradeço o convite! Pra mim é sempre uma excelente oportunidade de transmitir esse conhecimento. Existe um espaço, um gap de conhecimento entre academia e o seu exterior e quem passa por esse processo como eu passei, é até uma missão de vida colocar essas informações e ajudar as pessoas que querem realizar esse processo também. Temos que relembrar a alguns cientistas que nós não precisamos ficar esperando por vagas na academia, com certeza conseguimos fazer uma carreira muito produtiva e de muito sucesso fora da academia.

Bruno: O que te levou a transitar desse ambiente acadêmico para o de negócios, Georgia?

G: Eu poderia responder que foi quase um processo natural, mas não foi. Tipo: ''ah, aconteceu''. Não foi assim, foi todo um trabalho. No fim da sua tese, você já começa a observar o seu ambiente, o laboratorio em que está e os vizinhos e a se perguntar ''o que vou fazer quando eu terminar a minha tese ou meu pós doutorado''. E é natural do cientista observar, notar o problema e tentar resolve-lo, nós temos esse ímpeto.. E eu comecei a tratar a minha transição de carreira como um experimento! Por exemplo, quantas pessoas a minha volta conseguiram uma vaga na academia, passaram no concurso? Quantas pessoas que fizeram o doutorado na mesma época que eu conseguiram esse cargo e qual era o perfil dessas pessoas? Eu comecei a observar que independente da formação ou da genialidade científica que a pessoa tinha, a chance de conseguir uma vaga acadêmica era muito pequena. Existem muito menos vagas para professor, pesquisador e até técnicos especialistas, do que pessoas formadas! Aí eu comecei a pensar: e se eu não conseguir uma vaga? E se não tiver concurso próximo da época que eu terminar minha tese? O que vou fazer? Então eu comecei a fazer um plano B e até um C. Eu tive a oportunidade de fazer concurso, mas não passei. Daí parti pro plano B e C, mas foi uma questão de analisar e perceber que não tem vaga suficiente pra quantidade de pessoas que estão se formando, independente de quão genial fosse o cientista. Vi cientistas maravilhosos, de uma perspicácia fenomenal, uma capacidade de passar os conteúdos, de orientar alunos, que não conseguiram. Aí eu, inevitavelmente, me comparava... Todo mundo fala pra não se comparar, mas a comparação acontece. Comecei a perceber que não tinha como, que eu precisava de outros planos. Foi quando eu comecei a procurar a fazer planos a longo prazo, comecei a me imaginar daqui a 5, 10 anos, o que eu iria querer estar fazendo. E comecei a planejar, olhar onde eu estou, para onde eu quero ir e como fazer para chegar até lá. Foi assim que me preparei, por isso eu falo que não foi natural ou normal, foi um longo processo - essa minha saída da área acadêmica.

M: Exatamente. Bem cansativo e trabalhoso, né?

G: Com certeza, foi um trabalho diário. Terminei o doutorado em 2008, meu pós-doc foi de 2008 até maio de 2010. Desde janeiro de 2009 esse processo foi diário pra eu conseguir chegar lá. Não tem nada passivo nesse processo.

B: Sim, muita gente acha que as coisas vão cair do céu. A verdade é que tem que ter todo um preparo, um conhecimento sobre mundo corporativo e industrial que é preciso ser feito, né? A academia te prepara para reproduzir a própria academia, com algumas exceções. No Brasil existem algumas iniciativas interessantes, de empreendimentos novos em bioquímica e biotecnologia percebemos que você participou de alguns deles. Na sua opinião, qual é o grande segredo para se conseguir movimentar essas iniciativas empreendedoras e dar um novo rumo a essas pessoas brilhantes que acabam ficando sem espaço na academia?

G: Temos que dar o primeiro passo, e ele vai ser sempre um tropeço, já adianto isso. Não que a Scylla, empresa que me envolvi primeiro, tenha sido um tropeço, mas foi bem difícil. Um período curto, de alto aprendizado, mas acabei conseguindo contribuir muito pouco pra empresa em geral, afinal estava em uma área completamente diferente da minha. A empresa é focada em entregar soluções em bioinformática, algo extremamente computacional. E mesmo com os conhecimentos de bioinformática que desenvolvi no meu doutorado, não deu muito certo. Aprendi que a gente tem que entender profundamente o que a empresa faz, olhar o que empresa desenvolve e onde o seu conhecimento pode agregar o máximo para a empresa. Esse pensamento é diferente da academia, lá você faz o contrário - procura algo que possa te dar o máximo de conhecimento, um pouco inverso. Você entra em um grupo de pesquisa em que você pode adquirir o máximo de conhecimento e de experiência. Na indústria, o movimento é o contrário. Precisa entender a indústria, seu perfil, o processo e escolher um ponto onde você possa agregar o máximo para a indústria ou para a empresa. Quando eu terminei o doutorado, acreditava que teria dificuldade em lidar com a quantidade de propostas de trabalho que eu iria receber. Eu tinha essa ''arrogância inocente'', de achar que estava no topo da cadeia, mas sem malícia.! Aí eu aprendi que a mentalidade para trabalhar na industria é outra, bem diferente da academia. E a Scylla me trouxe esse aprendizado. Quando apareceu, eu entrei em uma vaga muito bacana, me deram uma oportunidade de ouro para aprender com eles como funciona esse negócio de empreendedorismo fora da academia e lá eu aprendi isso. Aprenda sobre a indústria, onde você possa aplicar o máximo de conhecimento! Um tempo depois veio a RHEABIOTECH, procurei um trabalho onde eu poderia entregar o melhor de mim e foi maravilhoso. Tendo posse desse conhecimento, o progresso acontece. Sempre tendo em mente a imagem de como quer estar daqui a 10 anos. O BIOTECH-AHG veio como um processo número 2, sair do laboratório, sair da parte técnica e ir para a consultoria. Porque depois de um tempo dentro da mesma função, sentimos a necessidade de renovar, de sentir que estamos progredindo na carreira. Esse nesse sentido, a BIOTECH-AHG foi um segundo passo, sair da bancada e ir para um ambiente de consultoria em biotecnologia.

B: O sucesso de uma empresa em biotecnologia seria as pessoas, uma boa ideia ou o financiamento?

G: Na verdade, esse sucesso compreende essas 3 coisas, mas também nenhuma delas. A resposta é sim e não. Porque sem boas pessoas e uma boa ideia, você não consegue o financiamento. Mas sem o financiamento, você não consegue boas pessoas, e por tabela, as ideias acabam sendo sempre fracas. Você precisa investir em boas pessoas pra ter boas ideias, porém as ideias de vanguarda tem um custo. Então tudo junto e misturado seria a melhor resposta. Uma desvantagem no Brasil é que o governo oferece pouquíssimo espaço para um financiamento para indústria. Na França existe um forte incentivo governamental para as indústrias, existem muitos projetos na academia que, obrigatoriamente, tem que ser vinculados a uma empresa, para que esse conhecimento gerado na academia seja transformado em um produto, que a empresa vai empacotar e vender, de alguma forma. Tem sido muito rico esse lado que eu estou vivendo por aqui , esse outro processo, de como buscar idéias na academia que possam ser transferidas para a indústria. Esse é o meu trabalho aqui.

B: Como foi a sua transição, Georgia, de um ambiente menos regulado (academia) para um ambiente completamente regulado, como a indústria? Como a Anvisa, assim como o equivalente na França, legislações referentes a BPF, BPL...

G: Em relação a isso, não foi tão complicado. Apesar da academia ser pouco regulada nesse aspecto, ela é bem regulada em outros. Por exemplo, na universidade você tem uma liberdade para o que quiser, desde que a FAPESP, CNPq, CAPES, aprove, seja qualquer a entidade financiadora. Apesar de termos um ambiente menos regulado em relação às práticas, protocolos, temos uma série de outras limitações. O raciocínio de ser regulado pode ser transferido, você pode apenas trocar o foco e isso vale para qualquer outra habilidade. O planejamento de experimentos que o aluno faz com o seu orientador, ele é um modelo de gestão de projeto, que você consegue transferir, foi o que aconteceu comigo nessa mudança de ambiente. O fato de você ter que trabalhar dentro de um frame na academia te ajuda a trabalhar em um outro frame na empresa, é só você transferir o conhecimento. Um exemplo disso é como o ''CNPq francês'', o INSERM, fiscaliza os cadernos dos alunos e eles foram tão geniais nesse aspecto que o aluno que tiver o caderno mais adequado ganha um prêmio, um incentivo em fazer o procedimento de maneira correta. Eles tem um raciocínio de premiar o certo e esperar que todos os outros sigam esse padrão. Essa adaptação não foi tão complicada pra mim por isso, você precisa apenas focar as suas habilidades e transferí-las para um novo ambiente. Essa é um tradução de habilidades que o acadêmico pode, e precisa, fazer sempre. No meu site (http://www.georgiaporto.com/)  tem vários posts sobre esse assunto, na academia você aprendeu isso, mas na indústria quer dizer aquilo outro.

B: Exato, penso que falta na academia professores que ensinem os alunos a realizar essa transição, porque vejo muita gente um pouco perdida por aí. Nós que já vivemos isso, conseguimos enxergar essa transição de habilidades adquiridas no ambiente acadêmico para outro, mas tem muita gente que não consegue. Não existe um tráfego de informação entre as necessidades de empresas e indústrias para a academia. Muitas vezes, a academia imagina algo sobre o mercado, as vezes até idealiza o que seria o mercado e as habilidades requeridas por ele, quando na verdade, não é bem por aí. Creio que falta estímulo na academia e é aí que vem a importância de existirem conteúdos jornalísticos e informações específicos para esse público em transição.

G: Então, isso vem daquela questão que a academia prepara os acadêmicos e não existe um conteúdo que possa ajudar o acadêmico a fazer essa transição pra indústria. Isso somando ao fato da imagem que é formada na academia que o egresso só tem sucesso se se mantiver na academia. Se você acaba o doutorado e vai pra uma empresa, ''você perdeu a oportunidade de se manter na academia''. Existe uma mística de que as pessoas na academia apenas terão sucesso se forem professoras ou pesquisadoras na universidade e a gente sabe que isso não é, necessariamente, um fato. Tem pessoas que conheço que são excelentes acadêmicos, fizeram ótimas teses, conseguiram a vaga na academia e estão sofrendo, porque é muito difícil, tem pouco dinheiro, cada vez menos alunos estão interessados em manter uma carreira na academia. Quanto mais alunos na academia, melhor para a sociedade, mas a academia passa uma imagem que a única possibilidade de sucesso é se manter dentro da universidade até o final da vida. Não estou tirando sarro de quem pensa isso, eu mesma já passei por isso, e foi um processo pessoal e emocional readequar as metas de sucesso. Eu tive que redirecionar uma série de valores. Por exemplo, o que é sucesso, bem-estar, um trabalho de sucesso, que te empolgue. Não apenas para realizar essa transição, mas para me manter na indústria. Conheço muita gente que saiu da academia, não conseguiu se manter no mundo empresarial e desistiram, foram fazer outra coisa. Ok, isso também é válido. Mas essa mística na academia coloca o aluno numa sinuca de bico. ''Se eu não fizer isso, não atingirei sucesso na minha carreira, não serei bom o suficiente''. Isso precisa mudar, porque é completamente injusto com a pessoa que é um excelente pesquisador, ótimo caráter e se sentir inferior porque não conseguiu uma vaga na universidade, sendo que existem outras opções de carreira, tão bacanas e empolgantes quanto a de pesquisador acadêmico/professor. É preciso ampliar o leque.

M: Com certeza, é uma questão bem interessante essa, porque as vezes é até uma postura covarde - que se passa na academia - pois pode acabar oprimindo o que poderia ser um profissional de extrema qualidade. Enxergo isso como uma necessidade muito grande de amadurecimento de visão de oportunidade. Muitos centros acadêmicos pensam que o sucesso está só em um lugar e o que o estudante precisa compreender e amadurecer a sua visão para enxergar oportunidades onde a academia diz que não tem. Esse trabalho é encarado como subversivo, as vezes, mas na verdade a gente está tentando ampliar o leque de oportunidades para cada profissional. Por exemplo, muita gente nunca pensou em fazer consultoria científica para jornais de grande veiculação para comentar sobre matérias, colunas, ciência. Isso não passa pela cabeça das pessoas. Amadurecer essa ideia, não que na academia não tenha sucesso, tem sim. Mas também temos que amadurecer o olhar do estudante para garimpar outras oportunidades dentro do mercado, empresa, todos os lugares possíveis. Essa demanda nossa é muito grande, realmente.

B: Outro ponto também é que as pessoas que migram para empresas e indústrias podem favorecer pesquisas na academia, o que no Brasil é bem defasado. E além disso, favorece um intercâmbio com a universidade. É muito difícil uma pesquisa ter verbas constantes oriundas do Estado. Estamos vendo os problemas disso atualmente, diversas fundações estaduais de amparo a pesquisa totalmente quebradas, como a FAPERJ, o CNPq com muito atraso e cortes de verba. Isso ilustra que não podemos mais depender apenas do Estado para fazer ciência, devemos deixar que algumas pessoas diferentes entrem nesse meio, fazer o que grandes empresas fazem, como: Natura e Boticário, que acabam financiando empresas incubadas e empresas em parceria com a universidade, esse é o ponto. Isso é primordial daqui pra frente, eu creio. E pra tudo isso poder acontecer, precisamos de egressos mais corajosos, dispostos a realizar essa transição que a Georgia fez, assim como alguns membros do BioquímicaBrasil fizeram também. Nós estamos perto de encerrar esse bate-papo muito proveitoso, e pra fechar então Georgia, com base na sua carreira, quais conselhos você daria pra pessoal que quer transitar para a indústria ou constituir o seu próprio negócio?

G: Sou super fã dessa galera empreendedora que ainda está na universidade, pessoal de Empresa junior. Esse movimento tem que ser muito apoiado. Estatisticamente, a gente sabe que +-70% dos empregos no país vem de pequenas indústrias e microempresas. Temos que apoiar esse movimento dentro da ciência também, dentro da bioquímica e da biotecnologia, cosmetologia, onde couber uma micro/pequena empresa, a gente tem que apoiar, porque é onde acontece o primeiro passo do acadêmico rumo a transição. Sei que é difícil, o governo é complicado, mas a gente não pode se limitar. Em relação a minha dica para os bioquímicos que querem sair da academia, sempre pensem - com sinceridade e ousadia - onde você quer estar daqui 10 anos. Seja muito sonhador, jogue sua meta lá pra cima. E pense no caminho inverso, ao contrário, da onde você está hoje e como você vai estar daqui 10 anos. Faça uma análise de onde você está hoje, é muito importante que você seja sincero. Onde você está mesmo e não onde você gostaria de estar. Essa parte é bem cruel, dá uma dor no peito. A partir disso, é como um GPS, você traça uma rota da onde você está pra onde você quer chegar. Com certeza, no meio do caminho pode ocorrer alguns ''recalculando rota'', mas você sabe o seu destino final. Esse é um ponto bem importante. Esse tipo de planejamento tem que ser feito para a pessoa, para o indivíduo, para o acadêmico, para o funcionário, para o profissional e também para o seu negócio. Quando você tem uma empresa e sabe que tem problemas a serem resolvidos, tem que fazer o mesmo tipo de planejamento. Onde você quer que sua empresa esteja daqui 10 anos, imagine toda a sua empresa, as salas, sua cadeira, imagine a sua empresa e faça o planejamento backwards, de trás pra frente. E claro, procurar pessoas que fizeram essa transição, a maioria do pessoal é super aberto a esse tipo de questionamento. Elas vão te dar muitas dicas de como superar certas questões que eles mesmos já enfrentaram. Essas são as 3 dicas mais importantes, acho.

M: Muito legal mesmo. Muitíssimo obrigado Georgia, em nome do BioquímicaBrasil, agradeço enormemente esse bate-papo, muitas ideias pro nosso grupo pensar também... Obrigado demais, estamos sempre abertos a novas conversas, parcerias pelas nossas iniciativas no mesmo campo.

Em breve, a parte 2 de nossa conversa, sobre outros temas 🙂

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O movimento Bioquímica Brasil foi fundado em 2014 por egressos e estudantes dos cursos de Bioquímica.

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