NEUROQUÍMICA: INTERSECÇÃO ENTRE BIOQUÍMICA E NEUROCIÊNCIA

por | set 18, 2021

Desde os primórdios da humanidade, o cérebro tem sido um objeto de estudo fascinante. Ainda assim, grande parte do conhecimento que a humanidade possui hoje acerca deste foi obtido somente nas últimas décadas, depois que esse campo passou por uma rápida evolução, que tem se mantido constante até os dias atuais. Isso culminou no estabelecimento da neurociência como a área do saber multidisciplinar que contempla o estudo do sistema nervoso e de suas nuances.

Esse campo científico se comunica com outras áreas do conhecimento, o que dá origem às suas cinco subdivisões consagradas: neurociência comportamental, neurociência cognitiva, neuroanatomia, neuropsicologia e neurofisiologia. Porém, ela não se limita somente a essas subdivisões, uma vez que a sua grande abrangência permite que profissionais das mais diferentes formações acadêmicas possam contribuir para uma ramificação maior ainda deste.

Figura 01. Neurônios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://innt.org.br/laboratorio/laboratorio-de-neuroquimica-do-instituto-de-biofisica-da-ufrj Acesso em: 16/08/2021

Então, da intersecção entre a bioquímica e a neurociência, surgiu uma disciplina científica definida como neuroquímica.

De acordo com Agranoff (2003), a neuroquímica pode ser definida como a bioquímica do sistema nervoso, ao passo em que os neuroquímicos são cientistas que lançam mão de conceitos químicos, bioquímicos e biomoleculares para entender a estrutura e a função deste sistema.

Dessa maneira, uma área de atuação dentro da neuroquímica que está muito em voga atualmente é o estudo das suas respectivas disfunções. Um bom exemplo disso é a epilepsia, uma doença que se manifesta a partir de crises epilépticas causadas por descargas neuronais hiper-sincronizadas no hipocampo, que em seguida se propagam para outras estruturas cerebrais. Nesse âmbito, estudar a atividade de proteínas envolvidas com a excitabilidade neuronal, como a bomba de sódio-potássio, seria interessante para definir potenciais alvos neuroprotetores.

Outro exemplo interessante, que foge às neuropatologias mais comuns, seria a pesquisa dos efeitos da dieta ultraprocessada contemporânea nos processos cognitivos, visto que já se sabe que o excesso de gordura corporal pode desencadear processos de neuroinflamação e neurodegeneração. Também, vale citar o esforço que tem sido feito para buscar compreender como o excesso de luz branca dos eletrônicos têm impactado na produção de melatonina, gerando impacto na qualidade de sono das pessoas.

Figura 02. Malefícios da exposição à luz azul.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: https://activepharmaceutica.com.br/blog/os-beneficios-e-maleficios-da-luz-azul Acesso em: 08/09/2021.

Porém, não só da área acadêmica vive o neuroquímico. Assim, vê-se a possibilidade de atuação em empresas de pesquisa, desenvolvimento e inovação, principalmente no cenário atual de expansão global de busca de soluções farmacológicas para neuropatologias.

Um expoente disso, é a corrida de startups da indústria farmacêutica brasileira em busca do Know-How de metodologias mais eficientes de extração e purificação do Canabidiol (terpeno canábico) da Cannabis sativa, que seria utilizado para a síntese de medicamentos que objetivam melhorar a qualidade de vida de indivíduos acometidos por desordens como a epilepsia ou a Doença de Parkinson. Fato que ainda abre a possibilidade de contribuição desse profissional no desenvolvimento e validação de métodos analíticos para a síntese do fármaco, atuando diretamente na garantia da qualidade, eficácia e segurança do produto final.

Justificando essa área de atuação em números, nota-se que o investimento da indústria farmacêutica no desenvolvimento desse tipo de medicamentos é expressivo, com um potencial de mobilização econômica de cerca de 5 bilhões de reais no Brasil até 2024. Outrossim, observa-se uma movimentação majoritária desse setor em direção a pesquisa e desenvolvimento a partir da planta, como é o caso da startup Entourage Phytolab, que busca fazer frente às grandes farmacêuticas que já comercializam o canabidiol sintético no País. Como um todo, tais nuances desse ecossistema empresarial tornam o ambiente propício para a inserção do neuroquímico neste mercado.

Figura 03. Óleo de canabidiol livre de THC (molécula responsável pelo efeito psicotrópico).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/obtencao-de-cannabis-medicinal-sofre-com-burocracia/ Acesso em: 08/09/2021.

Em uma breve contextualização histórica da área, sabe-se que as origens da neuroquímica residem nas primeiras pesquisas acerca da composição química do cérebro, que, no século XVIII, se iniciou pela descoberta da presença de fósforo pelos alquimistas, e terminou com o descobrimento dos esfingolipídeos e fosfoglicerídeos pelos químicos. Já no início do século XX, os avanços se centraram na caracterização da acetilcolina, que culminaram na descoberta de outros neurotransmissores e da sinapse.

Atualmente, todavia, vê-se que a neuroquímica deixou de ser uma área preocupada somente com a caracterização química do cérebro e dos neurotransmissores, para se tornar um ramo de infinitas possibilidades inovadoras. Portanto, cabe ao bioquímico se aventurar nesse universo a fim de trazer contribuições significativas para a sociedade, seja na esfera acadêmica ou industrial.

REFERÊNCIAS

Agranoff, B. W. (2003). History of Neurochemistry. Encyclopedia of Life Sciences.doi:10.1038/npg.els.0003465

Sourkes TL (1992) The origins of neurochemistry: The chemical study of the brain in France at the end of the eighteenth century. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences 47: 322–339.

McIlwain H (1988) Neurochemistry and related terms: their introduction and acceptance. Neurochemistry International 12: 431–438.

BENARROCH, E. E. Na+, K+-ATPase: functions in the nervous system and involvement in neurologic disease. Neurology, v. 76, n. 3, p. 287-93, Jan 18 2011. ISSN 0028-3878.

International Society for Neurochemistry. https://www.neurochemistry.org/history/ Acesso em: 15/08/2021.

FUJIFILM Wako Chemicals U.S.A. Corporation. https://pt.wakolatinamerica.com/blog/post/a-importancia-da-neurobioquimica-no-tratamento-de-doencas-neurologicas/ Acesso em: 16/08/2021.

PERSONO. https://www.persono.com.br/insights/sono-e-ciencia/sono-e-luz/ Acesso em: 28/08/2021.

TALAMONE, RS. Novo tratamento com canabidiol é eficaz em pacientes com Parkinson. Saúde, USP online destaque. 16 de Outubro de 2014, Brasil. https://www5.usp.br/noticias/saude-2/novo-tratamento-com-canabidiol-e-eficaz-em-pacientes-de-parkinson/ Acesso em: 29/08/2021.

SENSATO, V. Processo obtém compostos ativos da Cannabis para a produção de medicamentos. INOVA, JU Unicamp. 25 de Setembro de 2018. https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/09/25/processo-obtem-compostos-ativos-da-cannabis-para-producao-de-medicamentos Acesso em: 06/09/2021.

SENA, V. Negócios de maconha medicinal já são realidade e apostam alto no Brasil. EXAME. 17 de Junho de 2021. https://exame.com/revista-exame/negocios-de-maconha-medicinal-ja-sao-realidade/ Acesso em: 08/09/2021.

Autor: Alexandre Martins do Nascimento;
E-mail: nascimento.alexandre1987@aluno.ufsj.edu.br;
Filiação: Universidade Federal de São João del-Rei; Extensionista do Projeto Pílulas de Neurociências para um Cérebro Melhor.

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